Entrevista com o reitor do Centro de Estudos Superiores da Legião de Cristo em Roma
Roma, quinta-feira, 1 de junho de 2006 (ZENIT.org).
Publicado originalmente na edição de Julho de 2006, no boletim informativo da Paróquia O Porta-Voz.
Como é ou como deveria ser a relação entre os novos movimentos ou comunidades eclesiais e as paróquias? A esta pergunta, cuja resposta deu lugar a debates no passado, responde o Pe. Miguel Segura, reitor do Centro de Estudos Superiores da Legião de Cristo em Roma.
Muitos de seus seminaristas colaboram em paróquias de Roma e de outras dioceses. Que contribuição ao binômio «paróquia-movimentos» podemos esperar deste encontro promovido pelo Santo Padre Bento XVI?
– Pe. Segura: A Igreja inteira esteve refletindo já durante vários anos sobre esta pergunta que você me faz. Temos vários discursos do Papa João Paulo II sobre esta relação entre os movimentos e as paróquias. O Papa Bento XVI também ofereceu múltiplas reflexões sobre este ponto antes de sua eleição ao pontificado. Mais recentemente, o Conselho Pontifício para os Leigos continuou aprofundando o tema. As respostas se vão dando tanto no âmbito teológico-canônico como no da vida de cada dia.
Creio que a contribuição que podemos esperar agora é o crescimento neste mútuo entendimento e aceitação, em continuar aprendendo como todos juntos construímos a Igreja. Trata-se de uma realidade vivida em primeira pessoa por muitos párocos e cristãos pertencentes a diversos movimentos. Esta colaboração cresce e se multiplica, oferecendo-nos, por um lado, um conjunto muito amplo de experiências positivas e, por outro, uma série de dificuldades normais para toda a realidade em crescimento. Em alguns momentos, as dificuldades, os temores e os riscos se convertem no único ponto de vista desde o que se enfrenta a relação entre as paróquias e os movimentos, embaçando a evidência de todo o positivo que tantos párocos e bispos estão vivendo.
Como digo, creio que uma das contribuições fundamentais do encontro dos movimentos com o Santo Padre e o Segundo Congresso Mundial dos Movimentos Eclesiais e das Novas Comunidades será a de dar-nos a perspectiva justa para enfrentar a relação entre essas duas realidades.
O senhor encontrou párocos interessados em pertencer aos movimentos?
– Pe. Segura: Claro. Como se comentou nas reuniões da Arcer (Associação de reitores dos colégios eclesiásticos romanos), uma porcentagem elevada das vocações diocesanas presentes atualmente nos colégios romanos provém dos novos movimentos. A partir disto, muitos párocos estão convidando os movimentos a participarem desde dentro na vida paroquial. Por outro lado, conheço pessoalmente numerosos sacerdotes diocesanos, entre eles párocos, que aderem à espiritualidade de algum movimento para fortalecer sua amizade pessoal com Jesus Cristo e para potenciar sua ação apostólica com o amplo leque de iniciativas que agregam os movimentos na realização dos planos de pastoral de cada diocese.
Mas, ao aderir a um movimento particular, não se corre o risco de que «tome partido» uma pessoa que deveria manter-se «imparcial»?
– Pe. Segura: Pode dar-se em algum pároco um pouco de partidarismo, mas considero que não devemos generalizar. Muitos casos demonstram o contrário. Todos formamos um só corpo em Cristo, sob a guia do Espírito Santo. Os párocos buscam os meios mais adequados para sua própria vida espiritual e para realizar seu ministério. E se sentem o chamado de Deus para viver sua própria vocação e missão segundo um carisma aprovado pela Igreja, não pode ser mais que para o seu bem pessoal e o dos fiéis que Deus lhe confiou.
Os movimentos não são nem devem ser grupos fechados nem igrejas paralelas; não são mais que caminhos ou veículos para aproximar as pessoas de Cristo, e a paróquia é a ponte. É verdade que nessa ponte pode haver problemas de tráfego e uma solução possível seria proibir a circulação, mas outra seria endireitar a ponte e organizar o tráfego. Por isso se fala com freqüência da paróquia como a «comunidade de comunidades». Se a meta da paróquia é aproximar todos os homens a Cristo e fazê-los partícipes de sua amizade, a solução parece evidente.
Por outro lado, o testemunho luminoso de tantos párocos nos ensina que não são meros administradores ou guardiões dessa ponte, mas pastores que infundem na vida paroquial um clima construtivo de caridade e de comunhão eclesial. E todos os fiéis, pertençam ou não a movimentos ou associações laicais, devem colaborar com seu pároco com uma autêntica atitude de serviço, fomentando a unidade ao realizar a missão comum de ir pelo mundo inteiro anunciar o evangelho.
Que frutos positivos o senhor vê na colaboração entre movimentos e paróquias?
– Pe. Segura: Voltemos à experiência. De fato, são muito numerosas as paróquias que acolhem em seu interior os novos movimentos e pessoalmente pude ser testemunha dos frutos positivos que produzem: vivência mais consciente do próprio batismo, impulso missionário, aumento de vocações ao sacerdócio e à vida consagrada.
Os membros dos movimentos não são mais que cristãos batizados que desejam compartilhar sua experiência de fé em Cristo. Dependendo de sua espiritualidade, enfatizam um ou outro aspecto, todos eles importantes. Uns fomentam o aprofundamento da fé, outros sua vivência através da caridade, outros seu anúncio pela proclamação da palavra ou pelo exemplo.
Muitos párocos souberam aproveitar essa torrente de «fé vivida» para revitalizar suas paróquias e multiplicar seus próprios esforços de evangelização. Cada movimento é uma grande fonte de recursos para a paróquia, principalmente quando falamos de voluntários, catequistas, animadores paroquiais, recursos formativos e programas de apostolado.
A que temores e riscos se refere quando fala das dificuldades entre movimentos e paróquias?
– Pe. Segura: Em certas ocasiões percebe-se em alguns párocos desconfianças e reticências quanto aos novos movimentos, mas devo reconhecer que atualmente esse fenômeno está diminuindo. E é que, de maneira errônea, os movimentos foram vistos como alternativas à paróquia, quase como se a paróquia estivesse destinada a ser substituída por eles. Também é verdade que em outras ocasiões a alguns membros dos movimentos faltou uma maior humildade e disponibilidade para se integrar na organização paroquial. Mas estou certo de que possíveis conflitos devem resolver-se com humildade, em dependência do Ordinário do lugar, e à luz da caridade evangélica e do mandato de Cristo que nos envia a evangelizar. Como o Santo Padre acaba de dizer em sua mensagem aos participantes no congresso mundial de movimentos eclesiais reunidos em Rocca di Papa: «Todo problema deve ser enfrentado pelos Movimentos com sentimentos de profunda comunhão, em espírito de adesão aos Pastores legítimos».
Sendo tantas e tão importantes as necessidades da sociedade e da Igreja, nada deverá pesar mais na balança que a missão comum que Deus nos confiou. Nesse sentido, são muito iluminadoras as palavras da conferência «Os movimentos eclesiais e sua colocação teológica», ditada pelo então cardeal Joseph Ratzinger, que a meu modo de ver já deu muito fruto, ainda que seja preciso seguir meditando-a e aplicando-a.
Não existe o perigo de uma separação dentro da paróquia? Uns se movem segundo um carisma, outros segundo outro... Não levará a uma fragmentação?
– Pe. Segura: Considero que os carismas em si não são fontes de desagregação. Todos eles provêm do mesmo Espírito Santo que guia a Igreja. Ele quis suscitar dentro da Igreja, e segundo as necessidades de cada época, ordens, congregações, institutos seculares e movimentos leigos, fazendo de todos eles ramos e flores da mesma e única árvore que é a Igreja. Creio que não é preciso preocupar-se pelo fato de cada flor ter uma cor diferente, se todas elas, com sincero espírito de comunhão, contribuem para beleza da árvore. Assim, cada movimento contribui com sua parte para o grande conjunto do trabalho paroquial.
O encontro com Bento XVI do próximo sábado potenciará a colaboração entre movimentos e paróquia?
– Pe. Segura: Estou certo disso. Os movimentos não são um problema, mas um dom para a paróquia e para toda a Igreja. Este evento será para os movimentos uma grande ocasião de encontrar-se com o Papa, e de manifestar sua adesão a ele e aos demais bispos. Porá em maior evidência que a Igreja de Cristo é uma comunhão, na qual a diversidade de dons enriquece a unidade de vida e de missão.
Também para as paróquias será de benefício, pois a mensagem do Santo Padre impulsionará, sem dúvida alguma, os movimentos e novas realidades eclesiais e intensificará, nas paróquias em que estejam presentes, a vida cristã e o zelo evangelizador.
Jesus Cristo comparou o Reino de Deus a diversas realidades em crescimento: o fermento, uma semente, um grão de mostarda que se converte em arbusto e em árvore frondosa. Em certas ocasiões a semente ou o embrião não revelam com nitidez tudo o que serão ao alcançar a maturidade, e isso pode provocar uma compreensível inquietude; mas no caso dos movimentos aprovados pela Igreja, temos a garantia de que conhecemos o semeador. A realidade que o Espírito Santo semeia nestes momentos na Igreja e nas paróquias não pode ser nociva se leva sua assinatura.

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